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Provocação2 min

Nenhuma auditoria verifica todas as transações, e isso está na norma

A ISA 530 governa como amostrar, e entra em cena depois que o auditor já decidiu amostrar. A decisão em si não pertence a nenhuma norma

A auditoria financeira, como é praticada hoje, foi desenhada em torno de uma restrição que a tecnologia já não impõe. A ISA 530, norma internacional que rege amostragem de auditoria, define amostragem como a aplicação de procedimentos a menos de 100% dos itens de uma população, de modo que toda unidade tenha chance de ser selecionada, e se aplica a partir do momento em que o auditor decidiu amostrar ([1]). Examinar cem por cento fica fora do escopo dela.

Isso deixa a pergunta mais importante sem dono. A norma não precisa justificar por que amostrar é necessário, porque ela começa depois dessa escolha. Durante décadas a justificativa foi óbvia o suficiente para nunca precisar ser escrita: verificar cem por cento das transações de uma instituição exigiria tempo e mão de obra que nenhuma auditoria conseguiria pagar. A profissão inteira se organizou em torno de amostragem estatística, testar uma fração da população e projetar o resultado sobre o todo, porque durante décadas não havia alternativa viável.

Isso significa que toda auditoria de amostra convive, por desenho, com uma fração da população que nunca foi examinada. Não é uma falha do auditor. É o modelo funcionando exatamente como a norma prevê.

Se as transições de um sistema são determinísticas, cada movimento de valor segue uma regra fixa e reproduzível, reexecutar cem por cento delas deixa de ser um problema de mão de obra e passa a ser um problema de capacidade computacional. E capacidade computacional, ao contrário de horas de auditor, ficou mais barata a cada ano, não mais cara. A restrição que tornava a amostragem necessária está desaparecendo para quem constrói sistemas sobre esse tipo de registro. A prática que ela justificou continua sendo o padrão.

Isso não torna nenhum auditor incompetente, nem nenhuma auditoria de amostra fraudulenta. Torna a pergunta desconfortável mais simples de fazer: sua auditoria testa uma amostra porque é a melhor prática disponível, ou porque nunca foi perguntado se ainda é a única?

Referências

  1. [1]International Auditing and Assurance Standards Board (IAASB). ISA 530 — Audit Sampling. ifac.org